Grande-pequeno, certo-errado, por ali-por aqui; cedo-tarde, perto-longe, gostoso-ruim ... e mais, muitas, inúmeras incoerências de coerentes deviries que pontuam o país das maravilhas paradoxais, das muitas Alices que quardamos e que por vezes não deixamos chegar á superfície dos sentidos.
Uma superfície repleta de palavras esplendidas, insólitas, esotéricas, crivos, códigos e decodificações, desenhos e fotos, um conteúdo psicanalítico profundo, um formalismo lógico e lingüístico exemplar. E no mundo da linguagem e do inconsciente dão lugar a um jogo de sentidos e do não senso, como num caos-cósmico.
O lugar do mundo dos sentidos, que são vividamente experimentados por Alice, sem pudores e instintivamente, só é possível degustar no campo da fantasia. E Lewis Carrol permitiu nesta a merecida liberdade dos deviries. Onde o conceito do devir transmuta-se em si próprio e noutro, e outro e do outro. Onde o frio pode ser quente quando este estado lhe for desejado e podendo tornar-se quente o frio quando lhe for preciso.
Que outra história permitirá aos nossos sentidos as múltiplas experiências sensoriais que não esta? Um presente de Lewis Carrol!
Viver esta fantasia, onde o ser confunde-se com o não ser, é particular dos paradoxos do mundo dos sentidos, onde a história de Alice tem fundamental importância por ser a primeira grande enumeração destes paradoxos. Ora renovando-os, ora recolhendo-os, ora inventando-os, ora preparando-os.
E esta série de contrários se dá nas transmutações dos deviries. O que é, em segundos torna-se o que não é. Mas isto só é perceptível a Alice, ou aos estóicos. Nós, anormais, não possuímos os sentidos apurados a ponto de percebemos as mudanças ínfimas que regem o movimento, o efeito das causas múltiplas. Percebemos apenas o ato mover como ação conseqüente das causas, apenas os efeitos de superfície.
Mas este mundo da causas nos é apresentado fantasiosamente por Alice. Ela nos faz ver essas particularidades do devir. Devir que torna-se outro e outro e outro e nunca o outro anterior ao outro. O conceito do EU perde com isto a sua particularidade, tornando-se sucessivos EUS e NÃO-EUS. O singular dá lugar a pluralidade.
Quando a bolacha pede para ser comida por Alice está pedindo que esta cresça, ou diminua. Ela então se torna maior do que era e por isto ela se torna menor do que é agora. Não é o que era, mas o que se tornou. E em breve se tornará outro. Mas não é ao mesmo tempo que ela se torna um e outro. Ela é maior agora e era menor antes.
Gilles Deleuze, admirador da história e grande filósofo dos deviries, descreve a simultaneidade destes, cuja única propriedade é furta-se ao presente. Em “A lógica dos sentidos”:
“É ao mesmo, no mesmo lance, que nos tornamos maiores do que éramos e que nos fazemos menores do que nos tornamos.”
Alice não cresce sem ficar menor, e nem fica maior sem ficar menor. Em todas as coisas há um sentido determinável, como afirma Deleuze:
“O paradoxo é a afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo”
O mesmo efeito também se dá no campo verbal, do nome que confunde-se com o ato. O acontecimento tem neste o seu contrário intrínseco. A imagem de Alice guarda seu contrário, que é refletido no espelho. Não como nos refletimos no de casa, mas o contrário desta imagem. Está é uma das primeiras surpresas que guardavam a busca ao coelho, que fala e tem pressa.
Por várias vezes na história Alice perde o seu nome, seu maior atributo identificador, para dar lugar à série de deviries.
No seu país das maravilhas, não é só seu nome que transmuta. Tudo é metarmorfoseado e metamorfoseável. Até o tempo, senhor de tão intrínseco, perde seu atributo temporal. O chá dos chapelões não devia ser as cinco. Não há tempo para tantas modificações.
Nada neste país faz sentido aos nossos sentidos acostumados à ordem e as coerências das coisas (aliquid). E é justamente por isto que fantasio viver nele.
Imagine ouvir essas histórias, perdidas em tantas entidades nominais:
“ O cavaleiro anuncia o título da canção que vai cantar. O nome da canção é chamado Olhos esbugalhados. _ Oh, é o nome da canção? diz Alice. - Não, você não compreendeu, diz o cavaleiro. É como o nome é chamado. O verdadeiro nome é: Velho, o velho homem. - Então eu deveria ter dito: é assim que a canção é chamada? corrigiu Alice - Não, não deveria: trata-se de uma coisa bem diferente. A canção é chamada Vias e meios; mas isto é somente como ela é chamada, compreendeu? - Mas então, o que é que ela é? - Já chego aí, diz o cavaleiro, a canção é na realidade Sentado sobre uma barreira.”
Imagine ainda querer chegar em um lugar não importando onde seja este:
“Por favor, o senhor poderia me dizer que caminho devo tomar para ir embora daqui? -disse Alice.
Isso depende em grande parte do lugar em que você quer ir. - responde o Gato
Eu não ligo muito para o lugar - disse Alice
Neste caso, pouco importa o caminho que você tomar - declarou o Gato.
Contanto que eu chegue em algum lugar - explicou Alice
Oh, disse o Gato, você pode estar certa de chegar lá, só que vai andar muito tempo.”
A obra Alice no País das Maravilhas expressa de uma forma muito criativa os deviries. Alice mergulha em um fantástico e nada comum mundo onde é rodeada de deviries a todo o momento. Perde a essência e a identidade (ao não ter certeza sobre o nome), a noção de tempo (quando os Chapelões tomam o chá das cinco durante todo o dia , já que o relógio parou e permaneceu neste horário). Vivencia um mundo de efeitos e mais efeitos, uma vida que é repleta de devir e de maravilhas. Vivencia o sentido como atributo do estado das coisas. Portanto, não apenas leiamos Alice, mas peguemos Alice, experimentemos, comemos, suguemos Alice. Devemos trazer esta personagem para nosso campo sensorial e de extra leitura. Não deixemos que Alice nos adentre só pelos olhos, mas pelos poros. E complete saboreando Deleuze. Assim estaremos dando aos nossos sentidos o prazer de exercer sua função: sentir! Sentir o variado, a mudança, o diferente. Sentir o grande e o pequeno, o certo e o errado, o por ali e o por aqui; o cedo e o tarde, o perto e o longe, o gostoso e o ruim ...
Deixemos que cinco horas leve todo o dia. E fiquemos certo de que chegaremos lá, mesmo não sabendo onde lá é, como lá se chega ou quanto tempo se leva para chegar lá.
Terminado este treinamento, e com os sentidos já dispersos e acentuados, poderemos ver quantos coelhinhos brancos passaram por nós com um relógio de bolso na mão, gritando: “É tarde, é tarde!”
por Carla Porto
9 de ago. de 2007
ALGUNS TEXTOS SOBRE ALICE I
E os dedos dançaram...
Diego
às
02:38
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