O gato da Alice era um espertalhão! Resposta pronta, comentário ajuizado, oportunidade nas intervenções, etc. Naquela calma fleumática típica dos gatos, era brilhante. Bem,... esclareça-se que eu não conheço pessoalmente nenhuma Alice que tenha gato falante, nem tão pouco gato algum que trate a respectiva dona por Dona Alice. O felino em questão, e de cuja sabedoria me ocupo hoje neste passeio, é o mesmo que foi imortalizado pelo fotógrafo Reverendo Charles Lutwidge Dogson, mais conhecido como Lewis Carroll, numa fábula que encantou e continua encantando gerações, "Alice in the Wonderland" (1865) ou, a bem dizer, Alice no País das Maravilhas, essa mesma, que muitos dos que me possam ler conhecerão de ginjeira, já contaram a filhos e netos ou já a ouviram contar de alguém antes daqueles saborosos adormeceres de infância.
A principal recordação que guardo do famoso gato é uma memorável conversa com Alice. Perguntava ela a dado momento, quando se lhe apresentavam pela frente vários caminhos a seguir e havia que optar por um deles: "Dizes-me, por favor, que caminho devo seguir, a partir daqui?" ao que ele, ronronando impávido, e entre dois daqueles ‘estiramentos’ em que os gatos são peritos, miava: "Isso depende em grande parte de para onde desejas ir!". Ora toma! Pois aí estava a sabedoria do bichano... Se não se sei para onde quero ir, qualquer percurso me serve. O mesmo é dizer que se não sei que futuro quero, qualquer futuro (não me) serve. Se não defini que emprego desejo, qualquer emprego (não) me irá agradar. Se não escolhi o curso que pretendo, qualquer formação será tão inadequada como qualquer outra. Se não seleccionei que tipo de amizades me servem, todas me serão indiferentes. Se não sei onde quero viver, serei estrangeiro em toda a parte, etc.
É certo que as escolhas são difíceis, as oportunidades escassas, os caminhos múltiplos, as ilusões mais que muitas, enfim, não há gato que nos ajude, porque afinal somos todos umas vítimas do "síndroma de Alice"!
Mas um dos caminhos possíveis, parece-me, é o das escolhas "
a contrario sensu", ou seja, pela negativa, por exclusão de partes, até que reste apenas uma opção que nos agrade. Um processo demorado e sem sucesso garantido mas que, pelo menos, conduz a uma escolha consciente e não deixa as nossas opções ao sabor do acaso. É um exercício, afinal, em que aprendemos a dizer por onde, para onde ou com quem, NÃO queremos ir.
Esta conclusão encontrei-a também na poesia ao reler José Régio que, nas estrofes do seu "Cântico Negro" (1925), falou e disse: " ‘Vem por aqui’ - dizem-me alguns com olhos doces / ... / Ninguém me diga ‘vem por aqui’!/ ... / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí!"
por Francisco Fernandes
9 de ago. de 2007
ALGUNS TEXTOS SOBRE ALICE II
E os dedos dançaram...
Diego
às
02:39
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