Alice, o Gato e Uma Não-Crônica
A estrada cheia de gente e eu pensando na crônica ainda por escrever. Tento escrever com palavras, sem computador, dentro da cabeça. Prometo que vou me lembrar quando chegar, palavra por palavra, transcrevo para o papel e... pronto!
Os carros e as pessoas, tudo pára. Fico olhando o horizonte carregado e penso que adoraria estar em casa: e a crônica que eu começara vira uma bolha de nada, penso em tanta coisa, meu deus, e a linha do horizonte ali, na minha frente. Tento imaginar coisas só boas, faço um esforço enorme, o sapato apertado no pé, o calor e os carros e as pessoas paradas. E eu sem música.
Invento histórias para ninar meu cansaço e minhas histórias invariavelmente terminam bem, começam com era-uma-vez-vida, há menininhas estudiosas, grandes bibliotecas com suas estantes cheias de livros: eu sou um pouco Alice e um pouco o Gato. Minhas histórias têm recantos engraçados: a menina lê embaixo da mesa enquanto o cachorro dorme; embaixo de uma videira um passarinho morreu, uma estradinha de terra, um gosto de goiabinha do mato, um uniforme de escola com a saia de casimira inglesa (ai que quente era no verão!), um livro (outra vez um livro, Esther?) sobre a mesa da cozinha, uma lição de inglês por fazer.
Presto atenção às pessoas paradas na rodovia: uns têm cara de intocáveis, outros fazem muxoxos, outros falam ao celular, outros falam ao celular e gesticulam. E eu querendo rir, me dando esta vontade doida de rir, eu aqui sem música, eu estaria tão bem se ouvisse Mozart e sua Sinfonia 40. Canto : tararã-tararã-tararã... tararã-tararã-ran-ran... E rio. Fico pensando na crônica, mas nem mais me importo com ela, abro um livro do Saramago e, já que está tudo parado mesmo, vou ler um pouco.
Mas não me concentro, com medo de não perceber os carros tomarem de novo o movimento e eu ali, parada no meio do caminho...
Olho a linha do horizonte: carregada de nuvens. Vai chover. Alice, o Gato e Uma Não-Crônica
Começo a inventar histórias de novo. E de novo me vêm à memória a lembrança de Alice e o Gato. Sempre gostei de Alice, do Gato e do Chapeleiro Louco, até da Rainha eu gostava: cortem-lhe a cabeça! Cortem-lhe a cabeça! Eu tinha nove anos quando li pela primeira vez Alice no País das Maravilhas e a gritaria da Rainha me perturba até hoje: despertou na menina que eu fui o sentido profundo da injustiça que os mais fortes praticam contra os mais fracos.
Puxa, mas por que estou pensando tudo isso e escrevendo também? Ora, talvez porque tivesse sentido hoje, na rodovia parada, vontade de gritar: Cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça!
Olho as pessoas: muxoxos, poses, uns dão pancadinhas no volante, outros fumam.
Eu também fumo, mas tivesse eu aqui a Sinfonia 40 ao menos, estava tudo bem.
E então, fecho os olhos, e imagino a vida como um refúgio, lugar para onde se foge, jardins secretos. E penso que não quero mais que isso. Lá, na Vida, Alice e o Gato se entendem e nenhum engana o outro. Brincam. Ninguém manda que se corte a cabeça de ninguém e tudo é bom porque ninguém jamais nos interromperia.
Lá, livros são dados de presente e os relógios conservam antigos ponteiros de marcar não-tempo. Lá, o jardim é para ser visto, Alice nunca chora e o Gato inventa jogos de fazer feliz.
Lá, os dois existem.
Lá, as pessoas acreditam em histórias.
Lá, é possível gargalhar e ser feliz.
por Ester Ps Rosado
9 de ago. de 2007
ALGUNS TEXTOS SOBRE ALICE III
E os dedos dançaram...
Diego
às
02:39
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Um comentário:
HAHAHA AHAHAH HAHAHAH
tenho mais espaço que a Rainha no blog! HAHAHHA
mais espaço que qualquer um !
AHHHA
eu sou... miauuu
Ass.: O Gato
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